E COMO MAI!

Este é o blog de Alex Correa e foi criado essencialmente como um centro de acesso aos trabalhos já publicados na lingua portuguesa, forma original.


Tuesday, March 8, 2011

Sistema Jaubert I

Muitos aquaristas comentam sobre o Sistema de Jaubert e o mantimento de substrato de fundo “vivo”, muitos até têm, mas poucos são os que realmente compreendem tais combinações e o porquê delas existirem. Venho através deste artigo então, trazer algumas das principais relações básicas entre esses tópicos e melhor apresentar o tão falado Sistema de Jaubert de maneira bem simples.

Primeiro vou explicar melhor do que estamos falando, para que os que nunca conseguiram entender por completo o que é o Sistema de Jaubert possam melhor compreendê-lo. O Sistema de Jaubert é um método natural de filtragem muito simples de se montar, de baixo custo e eficiente, concebido pelo professor Jean Jaubert da Universidade de Nice, Monaco, durante os anos 80, que começou à ser divulgado em 1990. Esse sistema permite que haja uma desnitrificação significante, principalmente através do cultivo de bactérias, dentre a presença de outros diversos organismos, usando como meio ambiente o substrato de fundo. O projeto original, montado pelo Professor Jaubert, descreve um sistema com um espesso substrato de fundo, utilizando aragonita “semeada” com areia viva, presença de Plenum (que é o que marca a teoria original de montagem desse sistema), sem skimmer, com circulação feita por aeração (pedras difusoras) e bombas d’água, sem trocas de água (alguns dos aquários experimentais no Aquarium de Monaco com trocas de água mensais de 5%, e uns até mesmo como sistema semi-abertos). Foi reportado não só valores de nitrato próximos ao zero, como também os de fosfato. No meio da camada de substrato de fundo foi colocada uma tela para separar e prevenir que organismos que costumam removê-lo, como algumas espécies de peixes e camarões, não bulissem com a parte destinada a desnitrificação, prejudicando o bom andamento dos sistemas. Poucas rochas cobriam a superfície de área do substrato de fundo. Pouca quantidade de peixes eram presentes nesses sistemas, provavelmente devíduo à ausência de skimmer (evitar produção/ introdução excessiva de matérias orgânicas sem exportação contínua). Existem atualmente variações e técnicas aplicadas ao sistema original, as quais irei trazer mais tarde nesse mesmo artigo.


A- Camada inferior do substrato de fundo destinada exclusivamente à desnitrificação.
B- Camada superior do substrato de fundo, onde existe uma pequena parte da nitrificação/ desnitrificação do sistema.
C - Profundidade total do substrato de fundo.
D - Representação do suporte de tubos de PVC para o sustentador do substrato de fundo (construção do Plenum). Ignorado se usarmos placas de filtro biológico de fundo (FBF).
E - Suporte de sustentação do substrato para o Plenum (muitas vezes substituído por placas de FBF).
F - Tela de separação das camadas de substrato, prevenindo que a área inferior seja oportunada.
G - Tela de separação entre o substrato inferior (área de maior teor de desnitrificação) e o Plenum.
H - Área destinada ao Plenum (entre o vidro de fundo do aquário e o suporte de sustentação).


A construção do Sistema de Jaubert atualmente implica na colocação de qualquer material que possa prover um espaço entre o vidro do fundo do aquário e o substrato, gerando um espaço de água entre os dois chamado de Plenum. Esse espaço pode ser construído até mesmo com placas de filtro biológico, sem que as torres do filtro sejam usadas, logo evitando que a água do espaço de baixo do substrato (Plenum) não entre em contacto livre com a água acima do mesmo. Normalmente as placas de filtro biológico usadas são as completamente horizontais, ou seja, as que não apresentam nenhuma ondulação de formato. Outro material utilizado, principalmente nos Estados Unidos, é o que se chama de egg crate, que é uma espécie de difusor usado normalmente em luminárias de interiores. Esse difusor tem a função de impedir que vejamos as lâmpadas, ao mesmo tempo permitindo que a luz seja emitida de maneira bem eficiente. É um produto de material plástico e normalmente apresenta cor branca, podendo ser encontrado em preto, dourado e prateado também. Os de cor branca são os que normalmente utilizamos para construir o Plenum. A aparência é de uma colmeia de abelhas, mas com os furos quadradinhos, e são vendidos em “folhas”. Esse material também é utilizado para construção de filtros wet-dry por alguns hobistas.

A construção correta para o Sistema de Jaubert é muito importante para sua eficiência de atuação. Diferentes variações surgem a cada dia, normalmente um pouco distante dos planos originais do Dr. Jaubert. Os sistemas que apresentam essas variações são normalmente chamados de “Jaubert Híbrido”. A maneira mais difundida de se montar o Plenum nos EUA é usando o egg crate, colocando duas camadas de uma tela fina, das usadas para prevenir mosquitos (material plástico), em cima do egg crate. Para o suporte do egg crate, formando o espaço entre o vidro e o substrato, colocam-se tubos de PVC de normalmente ¾ ou 1 polegada para aquários de menos de 380L de volume, embora segundo alguns autores o ideal seria de 1 à 1 ½ polegadas. Esses tubos precisam estar colocados de maneira à permitir que a água seja livremente e homogeneamente distribuída no Plenum. Pedaços de uns 10 cm do tubo usado para suporte podem ser cortados e colocados em uma distância de mais ou menos 10 à 15cm entre eles. Se tubos compridos forem usados para esse suporte, paralelos aos vidros laterais ou frontal, deverão ser furados de modo que a água flua entre os mesmos, evitando estacionamento da água, prejudicando o sistema. Muitos aquaristas utilizam as placas de filtro biológico de fundo, com a tela para construção do Plenum. Basta fechar a saída das torres do filtro com tela e cobrir com o substrato.
Alguns colam a tela no vidro, ou na placa sustentadora do substrato com cola de silicone para prevenir que partículas de substrato caiam no Plenum pelos lados. A maioria não cola, mas na hora de pôr o substrato, cuidado deve ser tomado. Colocando o substrato nas extremidades primeiro evitará com que tais acidentes venham à acontecer. Existem ainda os que fixam os sustentadores (no caso, os tubos de PVC) no egg crate, mas isso não é necessário, ao meu ver.



Pedaços de PVC de ¾ ou 1 polegada (B) são cortados (comprimento de +/- 10cm cada) e colocados sobre o vidro de fundo (A) com uma distância de aproximadamente 10 à 15 cm entre eles. Sobre esses suportes, descançamos a folha de egg crate, ou colmeia difusora de luz (C), que irá suportar o substrato. Em seguida, coloca-se a tela (D) sobre o egg crate e a primeira camada de substrato (E). A tela de isolamento é posta sobre o substrato (F), e por último, a camada superior do substrato (G) de fundo é adicionada. Para a construção e colocação do Sistema de Jaubert não perde-se nem 30 minutos. Quando usamos placas de Filtro Biológico de Fundo, esse tempo é ainda menor, tornando mais simples o trabalho. No caso do uso das placas de FBF algumas vezes são necessárias placas sobrepostas para poder compensar a altura que esse tipo de material é fabricado.

Qual o objetivo de usar o Sistema de Jaubert? Simples, é um sistema barato e que possibilita a desnitrificação (redução significativa de nitratos) através de sua área anaeróbica (baixa em teor de oxigênio). Nessas áreas, as bactérias utilizam o oxigênio do nitrato para o metabolismo, liberando muitas das vezes o gás de nitrogênio do aquário em forma de mini-bolhas. Dessa forma, com a presença de bactérias nitrificantes encontradas no sistema (parte superior do substrato e rochas vivas), existe praticamente o fechamento do ciclo do nitrogênio no aquário (nitrificação e desnitrificação). Com isso, o objetivo é de grande parte ou até mesmo todo o nitrato produzido no sistema ser convertido e eliminado do mesmo. Vale à pena lembrar que nitrato sozinho não é a razão de efetuarmos trocas parciais de água mensalmente, e essa atitude deve ser encarada como uma manutenção de grande ajuda para que qualquer aquário marinho se mantenha sadio. O Sistema de Jaubert não irá substituir os benefícios de trocas de água parciais.

Atualmente existe bastante polêmica à respeito do ideal material de substrato à ser aplicado à esse tipo de filtragem. Os que têm mostrado melhores resultados nos últimos anos são: aragonita, halimeda, ou mesmo coral moído. Aragonita ajuda o sistema com a dissolução suave de cálcio e algum reforço na reserva alcalina, sendo um dos melhores e mais utilizados substratos nos E.U.A. A Halimeda contém um pouco mais de teores de matéria orgânica do que a aragonita, mas também é um excelente substrato, com grande porosidade, com maior área para a dissolvência (cálcio). O coral moído apresenta quase que nenhuma propriedade de dissolução de cálcio, comparando com os substratos anteriores. Logicamente qualquer um desses substratos irão funcionar para o princípio de desnitrificação, quando adequadamente postos em prática. A mistura de aragonita e Halimeda é perfeitamente aceitável e muitas vezes funciona muito bem, além de dar um aspécto mais natural ao aquário. Alguns aquaristas misturam vários tipos de substratos com aragonita e/ ou Halimeda, incluindo areia de silica, corais moídos e conchas moídas, sem nenhum problema depois do sistema estar amadurecido. A areia de silica normalmente ativa a população de algas indesejáveis (silicato) e por isso deve ser evitada ao máximo.

O tamanho dos grãos dos substratos têm influência no processo de povoamento do substrato pelos organismos, afetando de certa maneira a desnitrificação. Substratos rígidos muito finos, como por exemplo do tamanho de grãos de sal de cozinha (<> 10mm) normalmente não são recomendados porque possibilitam muita entrada de luz, conseqüentemente ocupando a parte superior (mais área do que o almejado) com organismos fotossintéticos, principalmente algas, agindo negativamente no que diz respeito à desnitrificação e são facilmente/ constantemente bulidos por organismos de grande porte como os peixes e camarões. O ideal então é que o substrato seja de granulometria entre 1 à 5 mm, em sua maioria. Por outro lado, esses ubstratos de granulometria um pouco maior possibilita a reprodução de alguns mini-crustáceos que ajudam bastante no cardápio de peixes e mesmo de cnidários e moluscos.
Existem sistemas montados com substratos bem finos e que aparentemente não apresentam maiores problemas quanto aos pontos trazidos acima, normalmente sem organismos predadores dos micro-habitantes da cama do substrato e com esse sendo bastante rico em vida (normalmente depois de muitos meses de montado). Existem também os que foram montados somente com substratos relativamente grossos (grãos) que nunca deram problemas também, depois de bem amdurecidos. Isso tudo irá depender do sistema em si, dos organismos, da paciência, dedicação e observação do andamento do processo pelo aquarista. Em relação aos substratos finos, tenho notado que muitos podem apresentar ou não problemas (formação de substâncias tóxicas), enquanto que os que usam os mais grossos, às vezes não efetuam uma desnitrificação completa.

Com o uso da Halimeda porém o esquema é diferente porque ela é muito porosa e normalmente se comprime de tal forma a ajudar no processo de desnitrificação com o tempo, sendo uma ótima alternativa. Além disso, provavelmente existe uma facilidade maior para a Halimeda ser povoada mais rapidamente do que os outros substratos por causa de sua notável porosidade, além de poder manter logicamente mais quantidades de bactérias (e outros) por área do que os outros substratos. Os grãos de consistência mais rígida (coral moído ou mesmo aragonita), se passarem de um certo tamanho (grãos) poderão ter influência negativa no processo de desnitrificação, demorando mais à apresentar resultados satisfatórios, o que é difícil de ser entendido por muitos aquaristas. Quanto maior o grão, menor a área total disponível para o povoamento de bactérias, maior será a necessidade de altura do substrato então, e tempo para que comece a apresentar desnitrificação almejada (amadurecimento/ povoamento por organismos). Até mesmo substratos de consistência “gelatinosa” (natureza) são extremamente povoados por bactérias, quando comparados com substratos rígidos de diminutos grãos. Alguns substratos mais rígidos, com os grãos em dominância maiores de 4mm, por exemplo, dependerão do tanto de detritos produzidos no tanque (idade) e altura do substrato para que haja uma perfeita desnitrificação e ajudar na redução de nitrato (amadurecimento). Isso pode levar bastante tempo, como somente algumas semanas, dependendo do tipo/ quantidade de vida e da origem em que foram introduzidas no sistema.
Sistemas desnitrificadores de fundo com ou sem plenum deveriam conter uma mistura de diferentes medidas de grãos de substrato de fundo, variando de 1 à 5 mm, para que haja uma melhor distribuição da vida do substrato (grãos menores) e ao mesmo tempo uma perfeita desnitrificação feita pelas bactérias (grãos menores = +/- 1mm), sem que sejam formadas as substâncias venenosas (grãos maiores, até 5 mm, com excessão de grãos de Halimeda, que na maiorias das vezes são bem maiores, possibilitando diminuta circulação de água na área de cima do substrato). Um bom senso precisa ser seguido pelo aquarista, assim como um acompanhamento do amadurecimento do sistema.

Substrato de Halimeda pode ser tratado antes de ser utilizado, para eliminar parte dos componentes orgânicos presentes no material. O tratamento pode ser feito com cloro de maneira à deixar de molho e enxaguar depois com água doce. Algo semelhante já vinha sido feito na década de 80 para eliminar micro-algas dos esqueletos de corais usados na decoração de aquários marinhos. Portanto sendo comprovado a segurança. O cloro irá agir como “neutralizdor” desses compostos orgânicos, ajudando à evitar futuros problemas com algas indesejáveis.


E quanto à tão falada areia viva? Bem, areia viva nada mais é do que qualquer substrato de fundo que contenha vida presente. Existem inúmeros seres que habitam normalmente os substratos na natureza, mas muitos desses são impossíveis de serem mantidos em nossos sistemas fechados por longos períodos de tempo. Embora isso seja fato, muitos desses seres ainda sobrevivem e até mesmo se reproduzem com certa freqüência nos sistemas convencionais. Entre esses seres estão por exemplo: bactérias, copépodes, amfípodes, vermítides, minhocas, bactérias, parasitas, ofiuróides, dentre outros organismos, principalmente micróbios. Mas como é que se acha areia viva? Areia viva está por todos lugares nos oceanos, podendo ser coletada em locais limpos e mesmo fabricada pelo aquarista, simplesmente esperando que a vida das rochas vivas povoem o substrato de fundo. Mas será que os organismos das rochas não seriam diferente dos encontrados na areia em seus hábitats naturais? Alguns deles, mas grande parte desses seres vivem em ambos os meios e como os benefícios que basicamente pretendemos atingir (nitrificação, desnitrificação, mineralização, precipitação e transformação de detritos, por exemplo) com o Sistema de Jaubert são alcançados com os organismos também presentes nas rochas, felizmente podemos aproveitá-las para “semear” a nossa areia virgem. Normalmente isso começa a ocorrer depois de alguns meses do sistema montado, variando de sistema para sistema.
Diferentes organismos podem ser introduzidos através de areia viva coletada ou mesmo vinda de outro aquário já amadurecido e que apresente aparência sadia. Os parasitas de peixes ornamentais mais comuns normalmente reproduzem-se no substrato, logo um cuidado com contaminação vinda de outro sistema infectado é importante (doenças parasitárias estão presentes na maioria dos aquários de reef pois são importadas das lojas de peixes, onde é simplesmente impossível de se erradicar. Muitas vezes não é notada entre uma infestação e outra). A qualidade da areia viva (adquirida ou fabricada) é a principal chave para se obter sucesso com o Sistema de Jaubert.

Continua…

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